25/08/06

mal-estar

Esta semana encontrei-me quatro vezes, durante um total de 8 horas, com uma aluna que reprovei numa das disciplinas que lecciono. Eu tinha-me disponibilizado para ajudar quem quisesse estudar durante as férias para fazer exame em Setembro. Ela foi a única pessoa que resolveu aproveitar a minha oferta. Mantivemo-nos em contacto durante as férias e eu enviei-lhe alguns exercícios e corrigi as respostas que ela me mandou por email.
Esta semana, trabalhámos em regime de “explicações”. Revimos a matéria, dei-lhe mais exercícios, vimos as respostas juntas e até lhe fiz um exame de simulação, hoje, no qual ela teve nota negativa. Ficou desiludida, como é natural. Eu, confesso, já estava à espera desse resultado.
O que é que está a falhar?
A história repete-se e torna-se cansativa, ainda que o problema continue a ser sério de mais para que eu possa simplesmente encolher os ombros e dizer que a culpa não é minha. Ao fim de bastante esforço e treino, há muita gente que, como ela, pura e simplesmente não cumpre os objectivos. Escreve pessimamente e nem sabe porquê. Comete erros e não consegue identificá-los. Tem dificuldade em exprimir-se. Não consegue reformular uma ideia por palavras próprias. E por aí fora.
Motivos? Péssimas bases, anos e anos sem ler, falta de acompanhamento, falta de motivação para se auto-aperfeiçoarem, demasiadas distracções que só servem para agravar as lacunas, eu sei lá...
Por mais pena que eu tenha, não vejo como posso ajudar mais esta e outras pessoas na mesma situação. Espanta-me que acabem o primeiro ano do curso apenas com nota negativa na minha disciplina (por vezes também a Matemática). Se não sabem explicar um conceito, expor um ponto de vista, construir um texto!...
Não sei o que fazer. E o exame está aí à porta: caras de gente esperançada, nervosa. Sorrirem-me e declaram que se fartaram de estudar nas férias. Alguns dizem que o exame lhes correu bem, quando saem. Mas em muitos casos olho para as respostas e vejo logo três ou quatro erros que teriam sido corrigidos por eles, se tivessem feito uma leitura atenta do que escreveram antes de entregar o exame. Depois constato que não estudaram, que se limitaram a tentar decorar matéria mais uma vez, sem a compreenderem. Ou, pior, que fizeram um esforço para compreender, mas não conseguiram.Não imaginam o que isto tudo me incomoda, me transtorna, me dói.

8 comentários:

Anónimo disse...

Pois... Com oito horas não se resolve um problema que levou anos a formar-se.

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

Vida de Praia disse...

Deve ser frustrante mesmo. Mas acho que o Jaime tem razão e que a culpa não é realmente tua, mas de anos e anos de ensino em que ninguém se apercebeu que a pessoa mal sabe ler, escrever, exprimir-se ou pensar independentemente ou mesmo até racionalmente.
É o que eu digo: se lhes dessem logo o teste de o que fazer às beatas e às impressoras avariadas, havia muito boa gente que não passava ao ensino superior e evitavam-se este tipo de situações frustrantes para o professor conscencioso.

Vida de Praia disse...

Ooops... e se eu tivesse lido atentamente o que escrevi, não teria deixado passar a última gralha: era "consciencioso" que eu queria dizer... ; )

Anónimo disse...

Ainda bem que a Tikka tenta ajudar os alunos. Boa professora. :-)

Anónimo disse...

O problema dessa aluna é o de muitos. Nunca deveria ter entrado na faculdade.
A culpa pode não ser dela, pode ser do sistema, mas vai dar ao mesmo.
Se não tem bases, terá que voltar ao secundário. Ou ao primário?

Dulce disse...

Já sabes que a minha religião não me permite falar de escola, nem de alunos, nem de professores...
:))

Só não quero que estejas infeliz com coisas que vão para além da tua capacidade de acção.

Abraço caloroso.
(Vem outra vez almoçar comigo, passear e... deixa lá o comprimido!! lol)

tikka masala disse...

Obrigada a todos. Um abraço a todos!

Luís Alves de Fraga disse...

Para alguns, ensinar é uma missão; para muitos, aprender é um frete!
O pior é que nem sempre ensina quem diz ensinar nem estuda quem se diz estudante... Eis o segredo do falhanço!
Tenha paciência e muita força de vontade.