31/08/07

O poder de Deus

AVISO: ESTE POST FERIR ALGUMAS SUSCEPTIBILIDADES. PEÇO DESCULPA, SE OFENDO ALGUÉM COM AS MINHAS PALAVRAS. PRETENDO APENAS EXPRIMIR A MINHA HUMILDE OPINIÃO.



Afinal, Deus é assim tão importante?

Porque é que quem acredita tem de o defender “até aos confins do mundo” (a expressão é de uma “apaixonada” que comentou o meu texto anterior), em vez de simplesmente se comprazer nessa satisfação espiritual que alcançou?

Se é verdade que a Igreja tentou converter muita gente à força em nome de interesses que nada tinham que ver com a religião, não se pode negar que haja ainda hoje muitos milhares de pessoas que abnegadamente se dedicam a espalhar a “palavra de Deus” (na verdade, palavras de outras pessoas sobre ele), apenas para partilhar com os outros a bênção que crêem ter recebido.

E para quê? Para que nos sintamos todos muito bem, na certeza de que resolvemos o mistério do Universo? Para que nos amemos todos e sejamos felizes, sem guerras, sem doenças e sem fome? Para que nos regozijemos na antevisão da vida para além da morte?

Parece-me uma grande ingenuidade. Para dar importância a sentimentos positivos como o amor, o respeito pelo próximo, a solidariedade, a justiça, para viver segundo princípios que nos dignifiquem, de acordo com uma moral que é filosófica e cultural, além de poder ser religiosa, não é preciso ter-se descoberto esse Amor de Deus que os crentes insistem em pregar.
Todos sabemos que, muitas vezes, é em nome de Deus que se cometem as maiores atrocidades. Eu diria mesmo que, à escala mundial, e considerando todas as religiões, os crentes prejudicam mais os outros seres humanos do que os ajudam. Porque cada “facção” acha que é a única que está na posse da verdade sobre Deus! E, mesmo quando conseguem conquistar novas “almas”, não é por isso que a violência, as doenças, os crimes, a fome, a injustiça deixam de existir e de fazer as suas inúmeras vítimas diárias. Então para quê dar tanta importância a essa entidade que NÃO RESOLVE NADA?

Desculpem, mas o pai de um amigo meu acaba de morrer com cancro. Era um homem bom, justo, solidário, sensível. Há seis meses ninguém suspeitava que viria a sofrer o que sofreu nestes últimos tempos, que viria a sucumbir de forma tão dolorosa e horrível, minado por um inimigo misterioso. Seria Deus?

Não sei. Mas também não me interessa. Porque, tanto quanto podemos saber com toda a certeza, SÓ TEMOS ESTA VIDA, SÓ NOS TEMOS UNS AOS OUTROS. O resto continua a ser uma incógnita.

24/08/07

A mãe do Pedro



A mãe do Pedro não fazia parte dos anónimos “outros”. Era uma senhora muito amável, daquelas pessoas que se adivinham intrinsecamente boas – assim como o marido, de resto. Eram um casal simpático e conversador, pais de um amigo meu dos tempos da adolescência, que moravam no prédio em frente. Não a conhecia bem e nunca fui lá a casa, porque a amizade que existia entre mim, o filho dela e os restantes membros do grupo era essencialmente “de rua”, como era hábito naqueles tempos sãos, em que nunca se ouvia falar de raptos nem de assaltos por aquelas bandas. Mas, ainda assim, gostava dela.

A mãe do Pedro era bonita. Uma senhora que não dava nas vistas, por ser baixa e algo redondinha, mas que uns olhos claros e límpidos, um sorriso franco, bem aberto, que lhos fechava com doçura, e uma pele muito branca, salpicada de sardas discretas, tornavam de facto bela. Lembro-me que tinha o cabelo sempre bem penteado e uma voz serena, cujo timbre ainda consigo ouvir cá dentro, no recanto das minhas memórias.

À mãe do Pedro não podia ter acontecido uma tragédia tão grande, dessas que só acontecem aos “outros”: estar na praia a molhar os pés e ser engolida por uma onda que a arrastou impiedosamente, sob o olhar aflito do marido, para a devolver muito mais tarde à superfície, a quatro quilómetros de distância.

Ao Pedro e à família não deveria ter acontecido essa atrocidade: perderem assim a mãe, de uma forma tão injusta, tão bruta, tão malvada.

Não me venham dizer que Deus lá tem as suas razões, que os homens não conseguem compreender.

20/08/07

Os filhos



Os filhos são tudo para nós. Mas também nos consomem.

Viver em função deles é inevitável. E no entanto, muito poucos são os que mais tarde reconhecem e apreciam o que os pais fizeram por eles.

Enquanto crianças, são demasiado novos para fazer mais do que amar-nos – e nada mais lhes pedimos, naturalmente.

Na adolescência, porém, quando começam a pôr-nos em causa, a querer seguir por caminhos que nunca ousámos pisar, a desafiar-nos a autoridade, a paciência e a boa vontade, também é inevitável cobrar-lhes o tempo que lhes dedicámos, exigindo o respeito e a obediência que julgamos merecer, apenas porque escolhemos tê-los e os educámos da melhor forma que sabíamos. Então, eles respondem, desarmando-nos: “não pedi para nascer!”