17/01/07

A fé dos que não a têm




É bonito acreditarmos em coisas que não se vêem e sobre as quais não há nenhumas certezas, nenhumas provas. Permite-nos diferenciar-nos do vil materialismo, dos limites da objectividade e da racionalidade.
Afinal, se ninguém sabe ao certo a que propósito é que aqui andamos; por que razão nos atarefamos tanto em produzir e teorizar, se vamos todos desaparecer e provavelmente o nosso planeta também; se ninguém pode saber onde acaba o universo, porque é que ele existe e se realmente há alguma entidade superior responsável pela sua criação, não faria sentido vivermos como se soubéssemos, ou vivermos como se essas respostas não nos interessassem.

A nós, adultos, fica-nos bem uma boa dose de espiritualidade, de idealismo. Mesmo quando somos inabaláveis na nossa vontade de resumir tudo ao acaso e de aceitar com estoicismo que somos insignificantes grãos de poeira, cuja actividade não vale absolutamente nada perante a fria imensidão do universo.

Penso que é importante transmitirmos aos nossos filhos, se não a certeza, se não a crença, pelo menos a esperança de que haja mundos para além daquele em que podemos ver, ouvir, tocar, sentir. É bom que eles acreditem que há mais qualquer coisa, já dizia Saint-Exupéry no seu sobejamente citado e conhecido Principezinho.

É bom que eles se possam apoiar nessa ideia, quando tudo o resto falhar, quando viverem momentos particularmente difíceis ou quando acontecer questionarem-se sobre o sentido que parece não existir na vida, tal como a conhecemos.

Mas será fácil?

Claro que não é, sobretudo no mundo em que hoje vivemos, sobretudo quando os pais são ateus, ou pelo menos agnósticos. Custa-me impingir-lhe teorias que não são as minhas, que estão associadas a uma religião com a qual não me identifico. Custa-me igualmente construir uma versão mais minha, mais "livre", mas que faz surgir mais perguntas do que respostas, mais inquietação do que paz de espírito.
Ainda assim, tento. Porque vejo a expressão profundamente assustada e confusa da minha filha quando se depara com a ideia da morte, da velhice, da impotência dos seres vivos perante o seu fatal destino. Custa.
Mas vale a pena insistir.

9 comentários:

Vida de Praia disse...

Imagino que custe e muito, mas ainda bem que tentas. A meu ver transmites à tua filha uma dimensão essencial da vida. E quem sabe se não te "contagia" um dia? ; )

Anónimo disse...

As fés acabam por se comportar como produtos de consumo. Cria-se a necessidade e há que satisfazê-la. E não sei o que será pior. Se utilizar a fé na educação das crianças que querem perceber tudo e por vezes o que não tem explicação, se condená-las a uma grande frustração e vazio quando, mais tarde ou mais cedo, compreenderem que foram enganadas.
Acredito que o mal menor será sempre a verdade. Que, como se sabe, é aquilo em que se acredita...
Para cada verdade, cada educação.

Luís Alves de Fraga disse...

Para além das respostas fundamentais às dúvidas existenciais do Homem, o que as religiões pedem dos crentes é que adoptem um código comportamental no qual prevaleça a correcção de procedimentos. Julgo que, só por isto, vale a pena incutir nas crianças alguns princípios religiosos. Um dia, mais tarde, terão a possibilidade de escolher e decidir. A posição contrária, que foi muito defendida aqui há 50 anos, deu origem a gerações de homens e mulheres sem códigos de comportamento social, permitindo que impere o da selva - este onde nos movimentamos.

Anónimo disse...

Ao que chamas «diferenciar-nos do vil materialismo, dos limites da objectividade e da racionalidade» eu chamo «cair na irracionalidade». Ou melhor ainda, «cair no erro da irracionalidade.» Ou mais forte: «cair no pecado da irracionalidade» (este último já com uma dose de conotação religiosa para maior impacto junto dos crentes).

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

Anónimo disse...

Acho que Luís Fragas está a confundir ética/moral (é a isso que se refere ao falar de "códigos de comportamento social"?) com religião. Ainda que a ética/moral possa historicamente ter recebido contribuições de alguma religião, ela é agora independente de qualquer religião. As pessoas podem ter elevados padrões éticos/morais sem perfilharem uma religião. (E também podem ser uns autênticos trastes que deviam ser banidos da sociedade, como eu.)

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

Luís Alves de Fraga disse...

«Para além das respostas fundamentais às dúvidas existenciais do Homem (...) que adoptem um código comportamental no qual prevaleça a correcção de procedimentos».
Caro Jaime, as religiões "oferecem" as "respostas" em troca de um comportamento ético. Não me parece que possa dissociar a ética religiosa (um comportamento correcto aos olhos de um deus para se viver no meio dos homens) da própria religião.
A ética laica, tão do agrado dos ideólogos da Revolução Francesa e do ideário republicano, chama-se civismo (correcção de procedimentos dentro da "civitas").
O civismo não supre todas as vertentes da ética religiosa, porque o primeiro visa o comportamento do Homem perante os outros homens enquanto o segundo aponta para o aperfeiçoamento do Homem perante si mesmo. Por outras palavras um está virado para fora e a outra está virada para dentro.
Essa ética de que fala é, no dizer do nosso Povo, para "inglês ver"; a ética religiosa é para agradar a um qualquer deus.
Talvez não concorde comigo, mas paciência... Não vamos encher o blog da nossa Amiga com troca de ideias "pesadas" quando ela nos brinda com preocupações bem mais ligeiras.

Anónimo disse...

Caro Luís Alves,
A minha proposta é que enchamos mesmo o blogue da Tikka com filosofia, seguida de política, até o transformamos num café de intelectuais de esquerda (ou direita, tanto faz). De certeza que a Tikka sempre quis ter um café. :-)

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

Vida de Praia disse...

O café da Tikka?...
O café da Tikka! : )

tikka masala disse...

Caros amigos,
agradeço que encham o meu blog com discussões sobre filosofia, política e religião - de preferência em simultâneo. Se as minhas preocupações parecem ligeiras é porque eu não sei escrever um texto com grandes verdades desse teor - mas isso não significa que não me interessem!
Jaime, a ideia do café agrada-me bastante. Só é pena ser virtual... que tal um a sério, um dia destes?