09/09/06

PASSEIO DE BARCO


O que faz um jacto de lodo a cair para o rio?
Não percebi.
À chegada à Trafaria, quase me arrependi de lá ter ido.
Impossível ignorar os cheiros nauseabundos que sujam a paisagem.
Venho comer a esta terra... será que o peixe é de confiança?
Saímos da estação e começamos a andar pela rua, debaixo de um sol cada vez mais incomodativo, em direcção a uma zona pedonal igualmente dominada pelo mau cheiro. Há três restaurantes convidativos, cada qual com a sua lista de especialidades à porta.
Hesitando, mas ansiosos por entrar num local mais fresco e aprazível, escolhemos o do meio, que estava menos cheio. Seria mau sinal?
Não era.
Comemos uns saborosos linguadinhos fritos com açorda e fomos bastante bem tratados. Mas chegar cedo é uma clara vantagem. No fim da refeição, reparámos que à nossa volta havia várias caras insatisfeitas com a demora do serviço.

Saímos por uma porta diferente e reparamos nas duas gaiolas, cada uma com os seu passarinho colorido, delicado e assustadiço, que esvoaça, nervoso, quando me aproximo com a máquina fotográfica.
A Mecas espreita-os ao colo do pai e depois caminhamos de volta para a estação, onde se vai juntando cada vez mais gente. Afinal, o barco é só de hora a hora.

Na viagem de regresso, foi o pai que tirou fotografias.
Ao todo no passeio, em números redondos, tirámos umas cem. Grande vantagem, não ter de comprar rolos nem pagar revelações!

Quando chegámos a Belém, nem queríamos acreditar na confusão. Havia gente por todo o lado, carros aos montes, fila para sair do parque, a conta-gotas. O que se passaria? Algum concerto, provavelmente.
Se soubéssemos, talvez nem tivéssemos saído de casa para fazer este passeio. Mas ainda bem que saímos de casa na ignorância. Tão bom, fazer um programa agradável e ainda por cima contra a maré da multidão!

5 comentários:

Anónimo disse...

O que é que esses linguadinhos terão andado a comer nessas águas... :-)

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

Luís Alves de Fraga disse...

Dará para imaginar que, há mais de 60 anos, a Trafaria era uma das praias da média classe média lisboeta? Que tinha casino com saraus dancantes, com música ao vivo, claro? Que, quando se atravessava o rio nos, então, chamados «vapores», os golfinhos saltavam na frente, acompanhando a embarcação até ao cais fluvial de Belém?
Dará para imaginar que na encosta pegada à Casa de Reclusão Militar se pescavam peixes comestíveis que davam pelo nome de "vejas" e "budiões"? Ou que se apanhava, de quando em vez, mexilão, no cais de amarração dos «vapores»?
Dará para imaginar que havia, ao longo da praia, até quase à Cova do Vapor, barracas, toldos e banheiros (que eram pagos para "dar banho" aos meninos mais medrosos da água do rio)? Que se andava de "charuto" (pequena embarcação para uma só pessoa, tipo canoa) a remar com um daqueles remos iguais aos utilizados pelos índios?
Dará para imaginar que, nas barracas e toldos, as mamãs, com olhos de águia, vigiavam atentas as filhas que inocentemente jogavam "ao prego" na areia ou ao "ringue", enquanto os jovens cautelosos tentavam iniciar um namoro discreto?
Dará para imaginar?
Não vou à Trafaria há mais de trinta anos... Não sabia que por lá existem restaurantes onde se pode comer bom peixe!

Luís Alves de Fraga disse...

Evidentemente que os saraus eram dançantes e não dancantes!!!!

Vida de Praia disse...

Penso nisso muitas vezes: ainda bem que não se sabe à partida de todos os empecilhos e complicações com que nos vamos deparar na vida. Senão não sairíamos de casa. Nem tiraríamos cursos. Nem criaríamos famílias. Nem... nem... nem...

tikka masala disse...

Luís Alves de Fraga, muito obrigada pelo seu apontamento colorido. Até dá para imaginar... Mas não dá para acreditar que o ambiente e a paisagem urbana e natural se tenham deteriorado tanto em tão pouco tempo. Se não vai lá há trinta anos, não o aconselho a voltar. Seria certamente uma desilusão!
Jaime, não faço ideia. A minha esperança é que aquelas águas não tenham linguadinhos nenhuns.
Vida de Praia, tens toda a razão. Muitas vezes é preciso agir sem pensar... resta esperar que saibamos escolher bem esses momentos!