10/09/06

OS OUTROS



Os outros são todos aqueles que não conseguimos compreender e por quem não sentimos qualquer espécie de afinidade.

Os outros incomodam-nos sobretudo quando vivem perto de nós, quando se cruzam connosco ou quando frequentam os mesmos espaços que nós. São as pessoas que cospem para o chão, as que começam a fritam carapaus quando nos sentamos para almoçar na varanda, as que deixam beatas na areia da praia, as que não apanham os cocós dos seus cães, as que enfeitam os carros com adereços, as que conduzem em fila lenta, a apitar continuamente, quando vão para um casamento, as que gozam com o gorila triste atrás das grades, no Jardim Zoológico, as que deitam lixo para o chão, as que penduram um Pai-Natal na janela da sala e o colete reflector no banco do carro.

Depois há os outros pura e simplesmente estranhos, os que falam uma língua incompreensível, têm uma cor de pele diferente, comem coisas intragáveis e têm hábitos inconcebíveis. Esses incomodam menos, porque costumamos manter-nos à distância – ou mantê-los a eles à distância.

Os outros outros, aqueles que realmente nos chocam, são as pessoas que abandonam cães na auto-estrada, crianças às portas, idosos nos lares, as que se drogam, as que ateiam incêndios, as que discriminam ou ignoram quem precisa de ajuda, as que maltratam outras, as que roubam, as que matam.

Mas independentemente do seu grau de estupidez ou maldade, os outros têm todos algo em comum e diferente de nós: são maus. Os bons somos nós.

É ou não é assim que tendemos a pensar?

Por mais que queiramos ser tolerantes, por mais que nos esforcemos por aceitar a diferença e amar – ou pelo menos respeitar – o próximo, a verdade é que todos já nos surpreendemos a pensar, ou a dizer, ou a fazer algo que estabelece essa fronteira qualitativa entre nós e os outros.

E o que acontece quando descobrimos que alguns dos outros estão, afinal, entre nós, porque fazem parte da nossa família ou porque entraram para o círculo dos nossos amigos?

E como ficamos quando percebemos que, surpreendentemente, há quem pense que NÓS fazemos parte dos OUTROS?!

14 comentários:

Dulce disse...

Fico sem palavras para acrescentar ao muito que este texto me fez sentir!

(Liga o msn)

tikka masala disse...

Não posso! Estou num pc que não tem MSN. Mas curiosamente acabo de me comover até às lágrimas com os teus textos. Beijo.

Dulce disse...

Gosto TANTO de ti, minha amiga!
Beijo grande!

Luís Alves de Fraga disse...

Gostei da profundidade da análise, mas sabe que «os outros» são, normalmente, a parte de nós mesmos com a qual não nos identificamos?
«Os outros» são aquilo que já fomos, que somos ou que sabemos existir em nós, mas queremos esconder. É por isso que a tolerância é um dos mais difíceis exercícios de relação inter-pessoal... Passa pela aceitação de nós mesmos naquilo que vimos reflectido no nosso semelhante. São as tais «armadilhas» da mente.
Parece-me que estou a tirar toda a poesia que o seu texto possui. Desculpe, não era meu intento, mas, às vezes, sou excessivamente terra-a-terra.

tikka masala disse...

Não tira nada, só acrescenta.

rascunhos disse...

Todos ( nós e os outros) somos um misto de virtudes e defeitos, de tolerância ou da falta dela.
A questão é saber que parte de nós é que alimentamos: a boa ou a má.

É que prevalece sempre a que alimentamos mais !

Obrigada pela visita.

tikka masala disse...

Muito oportuno, esse aviso! Obrigada também, ilhota2.

Vida de Praia disse...

Este post deu-me que pensar. Nós somos tão egocêntricos, que nunca pensamos que somos "os outros" para os outros. Ou que o que se sucede em relação aos outros provavelmente também sucede em relação a nós - é como por exemplo o falar-se mal de outrém pelas costas: uma pessoa pensa ingenuamente que só acontece aos outros, quando há toda a probabilidade de também nos atingir a nós, que somos os "outros" para os outros...

Anónimo disse...

Pois é! O Luís Fraga disse tudo o que valia a pena dizer.
Mas, no fundo, a nossa personalidade é também aquilo que, pelo menos para nós, nos diferencia de "os outros". Ou seja, uma certa dose daquele egoismo legítimo e salutar que nos cria defesas insuspeitadas contra potenciais ameaças.
"Os outros" poderão ser até melhores do que nós. Porém, as mensagens subliminares que nos enviam pelo seu porte, atitudes, trajar, expressão corporal, não se encaixam nas nossas. E o nosso cérebro, automaticamente, dá-nos "ordem" para nos afastarmos.
Mas, por vezes, quando somos forçados a estabelecer contacto com "eles", acabamos por descobrir as suas virtudes e potencialidades.

rascunhos disse...

Ainda a propósito dos outros aqui fica mais post sobre o tema em

http://www.opiolhodasolum.blogspot.com

"nós e os outros" de 12 de setº 2006

são uns marados bem dispostos:-)

Anónimo disse...

Excelente texto, Tikka! Só tem um senão: não foi escrito por mim. :-)

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

tikka masala disse...

E gostas da foto? Tirámos no barco da Trafaria :)

Anónimo disse...

Excelente reflexão, belo texto.

tikka masala disse...

Obrigada, Marga. É sempre uma alegria ter comentadore(a)s novo(a)s!