22/09/06

UMAS MOEDINHAS

Uma vez, há muitos anos, estava eu em casa de uma professora de Francês que era minha vizinha e amiga, e tocou à porta um senhor que vinha entregar a nova lista telefónica e receber a antiga. Ouvi-o perguntar se não lhe dava uma gorjeta, ao que ela respondeu peremptoriamente: «Não. Boa tarde». Depois de ter fechado a porta, voltou para a sala comentando: «Era o que faltava! A mim também não me pagam o ordenado duas vezes!»
Na altura, pareceu-me que ela tinha sido fria. E pensei para comigo que talvez fosse por ser "forreta" que ela estava cada vez mais rica. Mas mais tarde, depois de ter passado a trabalhar para ganhar o ordenado, e após anos e anos a vê-lo sempre igual e a sentir o poder de compra a diminuir, tenho começado a cortar drasticamente nas gorjetas.
Realmente, há profissões, ou empregos, em que se ganha mal, em que o trabalho é duro e ingrato e em que os clientes contribuem (em muito) para que o empregado trabalhe melhor e se sinta mais bem recompensado. [Atenção, que "mais bem" usa-se com adjectivos participiais, não pensem que é gralha!]. Mas porque é que há-de ser o cliente a "sustentar" o empregado, quando já paga pelo serviço? Ainda por cima com os euros, as coisas pioraram. As moedas valem cada vez menos (deixar moedas que não sejam das "brancas" é quase ofensivo) e portanto as gorjetas saem cada vez mais caras.
Na pastelaria aonde vou regularmente, acho os preços altos de mais para a qualidade. Porque me hei-de sentir obrigada a compensar o empregado, que até é esforçado e merece, quando o preço do produto já é suficiente para cobrir a gorjeta? E se eu não recebo gorjetas pelo meu trabalho (que bom seria!...), porque é que me sinto obrigada a deixá-las aos outros prestadores de serviços?
Acabo por perceber a filosofia "Tio Patinhas" da minha antiga professora... e talvez consiga amealhar algum, como ela!

7 comentários:

Anónimo disse...

"No meu tempo" ou seja, nos anos 60 do século passado, havia muitos profissionais que não tinham ordenado. Era o caso dos empregados dos cafés e restaurantes. Viviam das gorjetas e os clientes eram implicitamente obrigados a pagar o "serviço de entrega" do que lhes chegava à mesa.
Mas, com o 25 de Abril de 74 as coisas mudaram. E todos têm os seus vencimentos. As gorjetas já não se justificam.

Dulce disse...

Eu por norma não dou gorjeta. A não ser em circunstâncias muito muito excepcionais...

tikka masala disse...

Obrigada, deprofundis, pelo seu comentário tão elucidativo. Dulce, fazes muitíssimo bem :D

Anónimo disse...

Há pouco tempo dei uma gorjeta de 100% do valor da compra. A compra era um café. Achei que devia dar gorjeta porque o empregado estava bastante doente e mesmo assim a trabalhar desde as 7 da manhã.

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

tikka masala disse...

Jaime, és um querido. Mas o patrão desse empregado não!

Luís Alves de Fraga disse...

Há países europeus onde a gorjeta é uma «instituição» nacional. Concordo que deveria acabar... O encargo de pagar ao trabalhador é do empregador, mas... Se damos aos drogados que «arrumam» carros nas ruas, com o receio lógico de nos vandalizarem o automóvel, qual será a justiça para não dar uns cêntimos (muito menos do que ao drogado) ao empregado de «café», por exemplo? Só porque não nos vandaliza nada? Ou porque não temos medo de que o faça? Ou porque não tem oportunidade de o fazer?
Quid juri...

Vida de Praia disse...

Não me acho particularmente forreta, mas em relação às gorjetas sou ambivalente: dou-as excepcionalmente como a Dulce por um serviço excepcionalmente bem prestado; também dou aos "arrumadores" de carros por receio e por pena. Mas quando há anos atrás estive nos Estados Unidos onde é obrigatório dar gorjetas nos restaurantes e até têm um "preçário" (x% do valor x, e uma percentagem cada vez maior com o aumento do valor da compra) senti-me revoltada, devia ser um acto voluntário; dei gorjeta só porque tinha de dar, na quantia obrigatória e nem mais un cent.