30/09/06

Mecas Espertalhecas


- Ó mãe, posso comer uma guloseima?
- Não, filha. Ontem comeste DUAS guloseimas! Hoje não comes nenhuma.
- Comi? Mas eu não me lembro...
- Não te lembras, mas comeste!

A Mecas faz uma breve pausa e sai-se com esta:

- Quem não se lembra não comeu!

E quando eu me rio e comento:
- Essa é muito boa!

Ela pergunta de imediato:
- Vais pôr no blogue?

28/09/06

Português dou vido!


- Eu sei fazer muitas labarismas, mãe!

Fiquei a pensar o que seriam "labarismas"... provavelmente malabarismos, mas onde é que ela teria ido buscar aquela nova versão abreviada e no feminino?! Depois percebi. Já devia saber que as crianças usam a língua com muito mais lógica do que ela tem.

- Na escola aprendi uma labarisma, mas agora já sei muitas!

Claro! Quando dizemos "um malabarismo", a criança não sabe onde começa a segunda palavra. Distingue a sequência que já conhece ("um ma") e o resto é a maravilhosa novidade! ("Não estou nada no vidade, mãe, estou no quarto!!")

27/09/06

AOS LEITORES SILENCIOSOS




Há um sentimento ambivalente que eu nutro pelos leitores deste blogue que nunca o comentam.

Por um lado, fico muito feliz quando me dizem que me têm lido, que costumam visitar esta página. Tenho vontade de lhes agradecer encarecidamente, embora nunca o faça, por pura vergonha. Fico extremamente satisfeita ao verificar que, afinal, não tenho apenas aqueles seis ou sete leitores que deixam a marca da sua presença, que felizmente há mais algumas pessoas (amigas ou desconhecidas) que gostam de ler o que escrevo.

Por outro lado (lá vem o senão...), quando amigos e conhecidos me fazem essa inesperada revelação, tenho vontade de perguntar: «tu lês o meu blogue? Ninguém diria... porque é que nunca comentas os textos?!» Como se quem lê sem comentar andasse dissimulado, e deliberadamente optasse por calar a voz que o levaria a comentar, só para passar despercebido. Ou seja, essas pessoas deixam-me desconcertada e, tenho de admitir, algo triste e insatisfeita.

Claro que isto não faz qualquer sentido. Alguns de vós até já se deram ao trabalho (obrigada!) de me explicar pacientemente que os leitores de livros também não os comentam, que as pessoas têm o direito de ler, apenas, que podem não ter nada para dizer, ou podem simplesmente não querer expor o que pensam, ou até mesmo não saber como. E é claro que eu própria tenho de admitir que não deixo comentários em todos os textos que leio (embora tenha esta mania parva de deixar a prova de que li o post, às vezes até com um comentário desenxabido, que mais valia ter guardado para mim...).

«Lá estás tu a criar um aspecto negativo numa coisa boa!» – Dir-me-ão os que me conhecem melhor. «Em vez de ficares contente pelo facto de lermos o teu blogue, tens de arranjar um motivo para que isso não seja totalmente bom.»

(Às vezes gosto de fazer este exercício, que é imaginar alguém a falar comigo, a contrapor-me uma outra visão das coisas, a obrigar-me a reflectir sobre o que sinto e penso.)

«Afinal, o que é que te incomoda? É o facto de não poderes controlar as visitas? De não saberes se leram ou não leram? De não saberes o que pensam do que escreves? De ficares na dúvida sobre o facto de concordarem contigo ou não? Escreves só para seres aceite?»

Bolas. Talvez este exercício seja duro de mais para fazer em público...

Enfim, caros amigos silenciosos, e após este desabafo, aceitem as minhas desculpas. Continuem a não comentar o que eu escrevo e a vir aqui sem que eu saiba. Eu tenho de aprender a lidar com isso! E muito obrigada por me quererem ler.

26/09/06

POSITIVAMENTE, ASSIM NÃO!

Se eu ando bem disposta e gozo de boa saúde, se gosto do meu trabalho, se até às vezes me atrevo a dizer (embora só quando estou sozinha), que sou feliz, porque é que arranjo sempre um problemazinho, um senão, uma contrariedade, uma desvantagem para contrapor às coisas boas que me acontecem na vida?
Alguém pergunta: «Está-se bem aqui, não está?» e eu respondo logo: «Sim, mas...» e depois qualquer coisa inconcebível como «é pena aquela garrafa ali a boiar no rio» ou «Só é pena o cheiro...»
Estamos juntos, abraçados, a desfrutar de um momento de sossego na companhia um do outro. Ele comenta, sorrindo. «É tão bom estar assim!...» E eu saio-me com esta: «Tsk! Pois é, mas eu tenho roupa para estender e é preciso levar o cão à rua!»
Como é possível?!
Quando não estou atenta, a frase que digo mais vezes por dia é “Que chatice”. E a seguir, costuma vir uma lamúria qualquer, tipo: a aula correu-me mal, não sei o que hei-de fazer para o jantar, tenho uma tradução para acabar, ou, simplesmente, tenho tanto que fazer!...
E no entanto, sou feliz.
Sou feliz porque gosto de me queixar? Sou feliz só enquanto houver preocupações? Sou feliz quando não está tudo bem?
Quando alguém me aconselha a deixar-me levar pelas boas sensações, porque elas são “o que se leva desta vida”, eu ainda sou capaz de responder que isso é uma ilusão, porque não levamos nada desta vida!
Quantas vezes é que vai ser preciso os outros chamarem-me à atenção por ser tão (desnecessariamente) pessimista? Quanto tempo vou demorar até perceber que a minha atitude só serve para chatear os outros? Quantos posts vou ter de escrever sobre o mesmo assunto até me curar? De quantos comentários vou precisar para perceber que isto assim NÃO resulta?!

23/09/06

UM DIA



Um dia, uma aluna minha apresentou na aula um trabalho sobre os velhos (tema sugerido por mim). Ficámos todos a chorar, de comoção, de culpa, de tristeza, sei lá eu, com as palavras e as imagens com que ela ali nos desarmou perante o sofrimento dos velhos e a crueldade dos mais novos, que, em muitos casos, não os tratam condignamente.

Uns choravam porque os avós tinham morrido há pouco, outros porque os avós ainda eram vivos. Todos, talvez, porque sabíamos que também lá chegaríamos, que sentiríamos na pele a fria indiferença de filhos e familiares ingratos.

A mim, que sou relativamente nova, parece-me que os velhos sempre foram velhos. Parece agora paradoxal dizer isto, que de resto é uma parvoíce, eu sei, mas a verdade é que, quando vejo uma pessoa muito idosa na rua, custa-me a crer que dentro dela há alguém jovem, ainda, um coração como o meu, que simplesmente está preso dentro de um corpo enfraquecido, vergado pelo peso dos anos que já viveu.

Com toda a honestidade, estou apenas a tentar exprimir aquilo que sinto, sem querer, e tenho plena noção de que um dia vou perceber exactamente como é que uma pessoa idosa se sente... e também vou ficar triste, ao constatar que os jovens pensam que sempre fui velha, que sou tão diferente deles como um extraterrestre.

Há um senhor com 91 anos com quem converso às vezes, porque costumava passear um cão, como eu. Há tempos deixou de o levar à rua, por receio de já não o conseguir controlar. Mas ainda vai até ao café, tomar a sua bica e ler o jornal. Quando me cruzo com ele, pergunto-lhe como vai. E ele responde, melancólico: «vai-se andando... com esforço, mas tem de ser. Tenho de andar, senão deixo de me conseguir mexer.» E depois, com um sorriso estranho, triunfal e desgostoso ao mesmo tempo: «Já são 91 anos!»

«Pois... tem de ser!»... O que mais posso eu responder?

E fico a imaginar aquele senhor a andar ligeiro, com as costas direitas, a pensar no que ele fazia quando nem lhe passava pela cabeça que seria velho, um dia.

MAIS UM TRUQUE


Lembram-se do truque de falar ao telefone para não termos de aturar aquelas pessoas chatas que nos vêm impingir coisas à entrada do hipermercado?

A mim custa-me, de facto, estar sempre a dizer “não, obrigado” – sobretudo quando a pessoa que me impinge seja o que for já me conhece, porque ali passo várias vezes. E há outra coisa que me chateia: são aquelas chamadas telefónicas em que me pedem para falar comigo («Gostaria de falar com a Dona tal...), ou com a dona da casa, ou com a pessoa que cá em casa usa mais a Internet, e depois começam com grandes rodeios a dizer que estão a falar da empresa tal e que querem fazer-me uma proposta muito aliciante, blá-blá-blá... e o jantar ao lume!

Um dia, estava eu a queixar-me de que sou uma palerma, porque fico a ouvir, em vez de dizer logo que não quero nada, quando alguém me deu uma belíssima ideia: assim que pedem para falar com a Dona tal, dizer simplesmente «sim, só um momento» e depois deixar ficar ali o telefone, fora do descanso, até que do outro lado se cansem de esperar. É um truque um bocadinho mauzinho. Mas fica ao vosso critério usá-lo ou não... Eu cá, agora, quase que desejo que telefonem a chatear!

22/09/06

UMAS MOEDINHAS

Uma vez, há muitos anos, estava eu em casa de uma professora de Francês que era minha vizinha e amiga, e tocou à porta um senhor que vinha entregar a nova lista telefónica e receber a antiga. Ouvi-o perguntar se não lhe dava uma gorjeta, ao que ela respondeu peremptoriamente: «Não. Boa tarde». Depois de ter fechado a porta, voltou para a sala comentando: «Era o que faltava! A mim também não me pagam o ordenado duas vezes!»
Na altura, pareceu-me que ela tinha sido fria. E pensei para comigo que talvez fosse por ser "forreta" que ela estava cada vez mais rica. Mas mais tarde, depois de ter passado a trabalhar para ganhar o ordenado, e após anos e anos a vê-lo sempre igual e a sentir o poder de compra a diminuir, tenho começado a cortar drasticamente nas gorjetas.
Realmente, há profissões, ou empregos, em que se ganha mal, em que o trabalho é duro e ingrato e em que os clientes contribuem (em muito) para que o empregado trabalhe melhor e se sinta mais bem recompensado. [Atenção, que "mais bem" usa-se com adjectivos participiais, não pensem que é gralha!]. Mas porque é que há-de ser o cliente a "sustentar" o empregado, quando já paga pelo serviço? Ainda por cima com os euros, as coisas pioraram. As moedas valem cada vez menos (deixar moedas que não sejam das "brancas" é quase ofensivo) e portanto as gorjetas saem cada vez mais caras.
Na pastelaria aonde vou regularmente, acho os preços altos de mais para a qualidade. Porque me hei-de sentir obrigada a compensar o empregado, que até é esforçado e merece, quando o preço do produto já é suficiente para cobrir a gorjeta? E se eu não recebo gorjetas pelo meu trabalho (que bom seria!...), porque é que me sinto obrigada a deixá-las aos outros prestadores de serviços?
Acabo por perceber a filosofia "Tio Patinhas" da minha antiga professora... e talvez consiga amealhar algum, como ela!

21/09/06

A máquina que foi para o céu




Já repararam que há algum tempo que não ponho aqui fotografias?
Pois é... dei cabo da máquina fotográfica.
Esta foi uma das últimas, senão mesmo a última fotografia que tirei com ela. Até parece que tive uma premonição.
Estou triste. Era uma boa máquina e ainda tão nova...

A RUA

Quando eu era pequena, tinha a felicidade de poder passar os dias na rua, sem correr perigo. Dizia, simplesmente, à minha mãe ou aos meus irmãos «vou p´rá rua» e passava horas e horas a deambular pela zona onde morava, com as minhas amigas.
Jogávamos ao elástico, íamos comprar pastilhas ou qualquer outra coisa para mastigar que os nossos escassos escudos permitissem, sentávamo-nos nuns degraus a conversar, íamos a casa umas das outras e de pouco mais me lembro, no que respeita a pormenores.
Só sei que era muito feliz e que aquela liberdade nunca vai poder ser sentida pela minha filha. Ela não vai saber o que é poder dizer «vou p´rá rua», passar uma tarde inteira a brincar na rua, chegar a casa a cheirar a rua, sentir a rua como uma espécie de recreio gigante.
Os tempos são outros e hoje em dia só os pais irresponsáveis é que deixam os filhos pequenos andarem pela vizinhança, sem saberem bem onde estão. Não creio que os meus pais fossem irresponsáveis. Simplesmente confiavam em mim e, sobretudo, confiavam na sociedade. Numa sociedade que já não existe.

20/09/06

TRUQUE PARA NÃO DIZER NÃO

Quem é que gosta de ser abordado por aquelas pessoas à porta dos supermercados que nos pedem para lhes dispensarmos um minutos do nosso tempo?
Se for para ajudar, como pedem os voluntários do Banco Alimentar contra a Fome, pego no saco e vou fazer as compras. Acho um óptimo sistema, embora já tenha ouvido dizer que, nos armazéns, a data de validade de muitos desses alimentos por nós oferecidos acabam por expirar antes de eles chegarem às mãos de quem precisa.
O que mais me irrita são aqueles homens de fatinho que nos querem fazer aderir a um cartão de crédito e me pedem para "chegar ali, se faz favor". E confesso que nem tenho pachorra para lhes dizer que não.
O meu truque costuma ser ir colada às costas de uma pessoa qualquer, de forma a que eles lhe peçam a ela, mas não a mim, por estar demasiado perto e não dar tempo. Mas nem sempre há alguém a andar ao mesmo passo rápido a que eu costumo deslocar-me.
Hoje, porém, ocorreu-me uma muito melhor e que vai funcionar sempre, daqui para a frente: peguei no telemóvel e comecei a fingir que estava a falar com alguém... Senti-me bastante ridícula por ir a representar, e pareceu-me que se notava que era tudo a fingir, mas na verdade era só impressão minha. Foi remédio santo!
Está a ver, Fernando, que os telemóveis até são bem úteis?!