19/12/07

Feita num 8

Tenho a cara em obras, mas não pode encerrar!
Tenho comichão, mas não ajuda coçar.
Tenho as pálpebras inchadas, estranhas, encarnadas,
olheiras fundas, a pele a picar,
parece que pus a cara dentro de uma bacia
com ácido, ou coisa assim... nada me alivia.
Experimentei água de rosas, cremes, enfim,
nada adianta, estou há três dias assim.
Ando de óculos escuros, mas logo por azar,
está o céu tão cinzento e a chover sem parar,
só chamo a atenção, em vez de disfarçar.

17/12/07

O que fazer com a agressividade

Não a reprimir. Sobretudo, não fingir que sou tranquila e que estou em paz.
Lidar com ela. Deixar-me explodir, em privado, sem causar estragos. Observar-me, enquanto a tensão se alivia e se transforma em nada.
Apaziguar-me, quando a raiva se dissipa, como uma chama apagada.

12/12/07

SER ADULTA

Nunca vos aconteceu questionarem-se, num assomo de lucidez, sobre a essência de SER ADULTO? O que é que nos torna adultos e, sobretudo, QUANDO nos tornamos adultos? É de um momento para o outro, na data exacta em que supostamente acaba a nossa adolescência - digamos, no dia em que fazemos 18 anos? Ou será num dia impossível de prever, em que nos acontece uma experiência digna de nos amadurecer num só momento? Ou será um processo gradual, entre o dia x e o dia y da nossa vida? E quando isso acontece, o que nos define como adultos?


Eu, que até tenho muito que fazer, mas que aproveito todo o tempo possível para pensar (antes de adormecer, enquanto passeio o cão ou dou de mamar, durante os minutos em que estendo a roupa ou as horas em que cozinho... enfim!), penso nisso de vez em quando e, até agora, não cheguei a uma resposta satisfatória. No entanto, cheguei a algumas conclusões, que aqui partilho convosco, quanto aos aspectos da minha existência que, mais claramente, indicam que já lá cheguei.


Concluí que sou adulta porque:

a) Deixei de querer fazer anos

b) Sinto que não devia sair à rua sem me maquilhar

c) Já não tomo conta de crianças apenas quando alguém me paga para isso, ou quando me apetece

d) Tenho vergonha de ser observada por adultos quando estou a tentar brincar

e) Chego à conclusão de que já não sei brincar

f) Descubro que já não corro há anos

g) Fico a arfar, cada vez que corro durante alguns segundos

h) Há partes do meu corpo que abanam violentamente quando corro, e que me fazem ter consciência de que não devo correr à frente de ninguém

i) Já não faço coisas porque sim, mas apenas coisas que se justificam

j) Me coíbo de dizer grandes verdades, em nome da boa educação

k) Não tenho nada para comer, se não comprar ou cozinhar alguma coisa

l) Não posso sair de casa sem levar a chave

m) Vou ter contas para pagar nos próximos 40 anos


Resumindo, ser adulta é uma tristeza. Onde é que se pode fazer inversão de marcha nesta estrada?

05/12/07

O Pai Natal e eu


Na nossa sociedade, é quase impossível não ir na onda de dizer às crianças pequenas que o Pai Natal é que traz os presentes. Enquanto eles estão nessa idade em que querem e gostam de acreditar nisso, quem são os pais que lhes negam o prazer de viver essa fantasia, uma vez por ano? Quais são os adultos que têm coragem (e paciência) para contrariar o espírito incutido pela televisão, pelos amigos, pela escola, pelos familiares, pelos vizinhos, por quase toda a gente que fala às crianças nesta época?

Eu não tenho. E acho que já nem as avós cristãs que tentam repor a autoridade do Menino Jesus nessa matéria conseguem competir com o Pai Natal. E afinal, se ele é inspirado na figura histórica de um bispo altruísta que quis oferecer dotes às três filhas de um homem pobre sem ser visto, o Pai Natal é muito mais cristão do que a muita gente pensa. Nesse sentido, até é um homem bom, um exemplo inspirador. Uma vítima, como nós todos, do consumismo desenfreado em que nos afundamos cada vez mais.

Mas o Pai Natal tem uma coisa que me irrita profundamente: é fazer com que a minha filha pense que eu e o pai não lhe damos nada no Natal. Como somos nós que nos ocupamos de lhe satisfazer os desejos, que ela cuidadosamente regista e manda numa cartinha a esse velho bondoso que vive no Pólo Norte, não nos sobra margem financeira (nem criativa) para arranjar mais alguns presentes que lhe possamos dar, além dos que ela pede ao Pai Natal. Resultado: ela acaba por concluir que esse ilustre desconhecido é mais querido para ela do que os próprios pais. Ora, isso parece-me uma injustiça má de mais para ser mantida dentro destas quatro paredes!

Portanto, este ano, quando fui acusada de não ser tão boa como o homem invisível, tratei de dar a volta à situação. Inspirei fundo e expliquei à Mecas a grande verdade: que o senhor de vermelho é realmente muito simpático em trazer até cá, magicamente, os brinquedos que os duendes fazem a pedido das crianças. Mas que – E ESTE É O FACTO QUE MUITAS CRIANÇAS DESCONHECEM – os pais recebem depois a factura para pagar. Porque ninguém trabalha de graça e o Pai Natal não é excepção!

Má companhia



Quem, como eu, tem uma “personalidade forte” (eufemismo para mau feitio), já terá chegado à mesma conclusão a que eu chego muitas vezes: somos injustamente mais simpáticos para os desconhecidos do que para as pessoas que nos são mais próximas – o que é lamentável.

As pessoas que nos aturam todos os dias, que gostam de nós, que nos amam apesar dos nossos defeitos, são, naturalmente, as que mais merecem ser tratadas com carinho, respeito e boa educação. Mas em vez disso, porque nos sentimos à vontade com elas, levam com a nossa teimosia, a nossa antipatia e a nossa má criação.

É raro, mas às vezes acontece: dou por isso e arrependo-me. Envergonho-me. Apercebo-me de que, no fundo, para quem vive comigo, sou má companhia. Não tenho aquela graça, aquela amabilidade, aquelas qualidades que os ingénuos (que me conhecem mal) pensam que eu possuo.

E então faço um esforço por ser boa companhia - o que, por incrível que pareça, significa, de certa forma, fingir que mal conheço a pessoa que está à minha frente.

29/11/07

Espírito natalício



Já imbuída de espírito natalício, a Mecas entoava a canção que aprendeu na escola:

- "...Deus nos colocou na Terra
para algo ensinar:
o melhor presente não é receber,
mas o melhor presente é daaaaaaaaaaaar!

Antes que eu pudesse comentar, comovida que estava com a oportuna moralidade da letra, ela sai-se com esta:

- Então, mãe... o que é que me vais dar?

28/11/07

Reviver o passado em Algés

Uma cara conhecida, uma voz querida.
Alguém que aparece e traz luz consigo. Melhor: traz um mundo inteiro: não o daqui, que de repente desaparece, mas o que era meu - nosso - há vinte anos. O nosso outro mundo, aquele que já não volta, onde já não é possível viver. O dos saudosos anos oitenta. O da nossa juventude.
Alguém que vem de lá, de repente, surpreendentemente, como se tivesse atravessado uma parede na minha frente. Igual, ou muito pouco diferente. Porque tem o mesmo olhar, a mesma presença alegre, tranquilizante, amiga.

"Estás igual!" - dizemos um ao outro, tentando enganar-nos, como se os anos de silêncio entre nós nunca tivessem existido. Como se o peso da vida que correu de lá para cá não nos tivesse vergado. Bem vistas as coisas, o que interessam as rugas, quando se tem a alegria de retomar a conversa interrompida há tantos anos?

Vontade de ficar horas assim, em ameno diálogo, como se tivéssemos recuado até lá, que se tornou aqui. Não importa onde, nem com quem estamos. Só importa a sensação de que não se perdeu nem um grão da nossa amizade, que afinal, sem nos darmos bem conta disso, trazíamos toda nos bolsos.

14/11/07

Dora



A tia Dorinha é uma mãe que eu podia ter tido.

Ela diz que sim, que sente uma ligação inexplicável entre nós, como se tivéssemos sido parentes muito próximas numa outra vida. E depois olha para mim com um ar sério, com os olhos bem abertos, mas eu não consigo evitar sorrir, porque a tia Dorinha foi feita para eu rir com ela, não para conversas sérias.

Ficou prometido há muito que escreveria sobre ela. E não é por tê-lo prometido que o faço agora, após mais de um ano. É porque ela merece. Mesmo que nunca venha a ler estas linhas, por falta de contacto com o mundo da blogosfera.

Dora foi casada com um irmão do meu avô, que foi para o Brasil no tempo da guerra. Casaram a primeira vez pela igreja e depois separaram-se. Mais tarde, voltaram a juntar-se e casaram novamente, dessa vez pelo civil. Mas a relação estava condenada e divorciaram-se pouco tempo após o segundo casamento. No final dos anos noventa, ele morreu. Mas a tia Dorinha continua firme, no seu apartamento do Leme, bem perto da praia, no coração do Rio de Janeiro. O coração dela, porém, não é dali, mas sim de Minas. Grande, generoso, aberto.

Eu não sabia de quase nada da vida dela, até ter ido passar uns dias lá a casa. Mas, mesmo assim, não consegui fixar muita coisa. Aquela existência é tão cheia de peripécias e aventuras improváveis, que só consigo reter alguns pormenores soltos. Para mim, o que fica depois de uma conversa é a ternura que emana da sua voz grossa, a expressão simpática e divertida dos seus olhos bem redondinhos e escuros sob a franja branca, a gargalhada franca da minha querida tia-avó distante, de cigarro numa mão e cerveja na outra.

E frases. Ficam-me frases como a do esparguete, que ela tirou da panela, enquanto cozia, e atirou contra a parede, por cima do fogão. Quando lhe perguntei porque fizera isso, explicou com graça espontânea: “Ué, quando tá bom, gruda!” Depois, a inevitável risada. E o contágio!

Dora... sempre surpreendente. Independente. Irreverente. Lembro-me, também, de ela me ter contado que um dia, anos depois da separação, resolveu casar com um americano. Quando se apercebeu de que as idas aos Estados Unidos implicavam incompreensíveis malabarismos burocráticos, desistiu do homem. “Eu ia ter que PEDIR para os Americanos, cada vez que queria ir lá?! Ora...!”

Quando ela veio cá a casa, comoveu-se até às lágrimas quando a minha filha, com três anos, lhe chamou “tiazinha”. Aquilo foi para ela uma adorável manifestação de afecto. É por essas e por outras que ela também gosta tanto de nós. E é tão bom ser “gostado” pela Dorinha... porque, mesmo sem nos falarmos durante meses, eu sei que ela pensa em nós com saudades.

Eu também penso muito nela com enormes saudades. Não gostava que ela vivesse aqui, porque então não seria aquela personagem vivaça e colorida, mineira de gema com gosto carioca. Mas gostava que ela viesse a Portugal mais vezes. Para me fazer sorrir com as suas grandes verdades sobre a vida. E para me fazer sentir um nó na garganta com aquela sugestão de que talvez já tenha sido minha mãe.

Letras com sentido


Há tempos que ela desenhava algumas letras e até dizia saber escrever, rabiscando no papel o que alegava ser o nome dela, ou mesmo outras palavras e até frases.

Contudo, ontem, pela primeira vez, a Mecas escreveu o seu nome.

Não sei se fiz bem (pedagogicamente falando), mas, como ela já conhecia algumas letras, primeiro desenhei todas as que ela teria de escrever, aleatoriamente. Depois, disse-lhe quais é que se repetiam. Finalmente, escrevi o nome, para que ela conhecesse a ordem certa das letras. E observei-a, maravilhada, enquanto ela as desenhou.

Porque é que eu me senti emocionada? Não sei explicar. Só sei que o facto de ela ter escrito o próprio nome, uma palavra com sentido, me comoveu.

Não até às lágrimas, para variar. Mas fiquei tão feliz!...

06/11/07

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Sempre me enterneceu o sentido estético com que os portugueses se fazem rodear de lixo visual.
No campo, as maisons de azulejos coloridos, os quintais onde se colecciona entulho sob chapas de zinco, os muros inacabados e desiguais, os leões nos portões, os alumínios a profanar casas antigas.
Na cidade, as antenas "paranóicas", os aparelhos de ar condicionado a pingar para a cabeça de quem passa, a roupa estendida em todas as janelas e varandas, mesmo nos prédios em que não há estendais de origem, enfim...

Neste caso, fiquei maravilhada com a escolha da tinta usada para cobrir os remendos... é azul e basta!