18/09/07

Mórbido voyeurismo

Há dias, na data previsível, vi um documentário sobre a tragédia de 11 de Setembro em Nova Iorque. Dei por mim a pensar que vantagem veriam os sobreviventes em falar publicamente sobre a experiência. Questionei-me sobre a hipótese de alguns deles o recusarem e os motivos que invocariam. Perguntei-me: será que, quando vemos documentários sobre acontecimentos horríveis como esse, aprendemos alguma coisa que valha a pena? E quando vemos filmes como o Alive, aquele sobre o avião que se despenha nos Andes, será por outra razão para além do prazer mórbido que Freud explicou como a pulsão de thanatos?

Incomoda-me que se tenha feito um filme baseado na tragédia de 11 de Setembro. E que algumas pessoas se riam (como ouvi rirem-se) ao ver, em Alive, a encenação dos passageiros do avião a cair no ar, sentados nas cadeiras a que estavam presos, sabendo que aquilo aconteceu de facto. Aliás, confesso que sinto uma certa vergonha de mim própria por gostar de ver filmes baseados em acontecimentos fatídicos, como furacões, vulcões, naufrágios, etc. E quando isso acontece, penso que gostaria de ter a certeza de que ver essas tragédias encenadas traz algum benefício que não ofenda a memória dos que não sobreviveram às verdadeiras.


17/09/07

Gosto de pessoas que...

É óbvio que gostamos de pessoas que sejam parecidas connosco – nos princípios, nas convicções, nos sonhos, nas opiniões. Naturalmente, também gostamos que sejam diferentes de nós em certos aspectos que nos intrigam, estimulam, comovem, ou ensinam coisas novas. Mas, para além do óbvio, há pequeninos pormenores que tocam cada um de nós de uma forma única e às vezes incompreensível para os outros. É desses pormenores que estou a falar quando digo que gosto de pessoas que:

- contam anedotas que me fazem rir sonoramente e depois constatar que isso não acontecia há algum tempo;

- gostam de andar a pé e até me querem fazer companhia quando levo o cão à rua;

- se põem logo à vontade comigo quando me são apresentadas e me fazem sentir que já as conheço há muito tempo;

- insistem em oferecer-me um lanchinho, quando vou a casa delas durante a tarde;

- se lembram, passado muito tempo, de alguma coisa que eu disse e que até fazia sentido;

- confiam em mim, mesmo quando eu não confiaria...;

- têm uns pés bonitos, para os quais não me faz impressão olhar;

- gostam de animais (embora sem exageros ridículos);

- não fumam.

E vocês? Quais são as pequenas coisas que vos fazem gostar de alguém?

14/09/07

Estranhos estranhos


A minha amiga Vida de Praia, na sua "sacola", confessa que não tem a mínima paciência para aqueles estranhos que metem conversa connosco nas filas de supermercado ou nas paragens de autocarro, e que nos obrigam a dizer qualquer coisa quando preferíamos estar calados e sossegados.

Pois eu – e não é por saber que responder-lhes estimula o cérebro! – sempre achei graça a essas conversas que se geram assim espontânea e inesperadamente, pelo potencial que elas representam e pela forma sempre surpreendente como as pessoas se revelam nessas coisas aparentemente insignificantes que dizem.

É verdade que nunca sou a primeira a encetar uma dessas conversas, mas acho sempre interessante que me dirijam a palavra, nem que seja para depois escrever um post sobre isso. E lembro-me sempre de algo que uma professora de Cultura Portuguesa disse uma vez, que me fez pensar, e que era isto: hoje em dia, se entrarmos num autocarro onde só está um passageiro, não nos sentamos ao lado dele – aliás, ele até estranharia se o fizéssemos. Mas na Idade Média, se houvesse autocarros, aconteceria o contrário: o passageiro ficaria melindrado se nos sentássemos longe dele.

13/09/07

Mente fraca


Depois de ter falado de objectivos, parece quase cómico que agora venha falar do meu corpo e de como desejo que volte a ter a forma que tinha antes da gravidez.

Não posso dizer que era esse tipo de objectivo que tinha em mente quando escrevi aquilo. Mas acabo de regressar da rua e, por ter empurrado o carrinho ao sol, num passeio de um quilómetro, cheguei a casa a transpirar. Ao despir-me, constatei o que constato agora todos os dias, mas hoje pela segunda vez: não tenho quase nada que me sirva.

Admiro – com alguma suspeição – as grávidas que voltam a vestir a roupa de antes na mesma semana em que têm os filhos. As que saem com calças justas da maternidade e não parecem o boneco da Michelin mal disfarçado. As que se gabam de terem ficado ainda mais magras do que eram depois do parto.

“Oh, mas o corpo demora uns seis meses a voltar ao que era, na maior parte dos casos!”, dizem-me o médico e as amigas. “Tens de ter paciência e... fazer alguns sacrifícios” – digo eu.

Talvez prefira o sacrifício de ser assim.

11/09/07

Objectivos


Ter objectivos é importante para nos ocuparmos, para darmos um sentido à nossa vida. Os sonhos são bonitos, mas não acreditamos neles. Os objectivos, ao contrário dos sonhos, são atingíveis.

Olho para mim hoje e constato, com satisfação, que tive a sorte de conseguir cumprir todos os objectivos que tinha estabelecido para mim, quando comecei a pensar nisso, durante a adolescência. E vocês estão a pensar: “ou ela é um caso de sucesso, ou tinha objectivos muito modestos...”
Confesso que se trata sobretudo da segunda explicação, eram modestos, sim. Pelo menos para mim, claro. Para um adolescente subnutrido que vivesse num país subdesenvolvido, talvez fossem apenas sonhos, infelizmente. Por isso, logo à partida, tive muita sorte. Mas, por mais fáceis de atingir que sejam os nossos objectivos de vida, realizá-los dá-nos sempre o alento de nos sentirmos bem, capazes, confiantes e... depois um pouco vazios. Depois de atingir o que desejávamos, a vida começa a parecer-nos monótona, falta-lhe aquela motivação interior para chegar algures, para fazer o que ainda não está feito. Talvez este vazio pudesse ser definitivamente preenchido pela crença nalgum Deus, mas como sabem, e apesar de ter frequentado um colégio de freiras, o meu agnosticismo não me permite ver essa luz.
Resta-me meditar um pouco e definir aquilo que ainda me falta cumprir para que a minha existência continue a fazer sentido.

03/09/07

Uma gota de água


... no oceano da minha preguiça!
Agarrei em mim e na família e fomos até ao Parque das Nações, para que a Mecas e eu pudéssemos andar de bicicleta, nem que fosse apenas durante meia hora.
Há anos que não o fazia e até tive medo de ir contra alguém ou alguma árvore! Mas felizmente não me portei mal e ela achou muita graça ao facto de a mãe pedalar ao lado dela. Depois, quando se cansou, sentámo-nos numa esplanada a almoçar. Deliciei-me com uma bela salada de gambas acompanhada de um batido de abacaxi e fiquei verdadeiramente orgulhosa por ter tido a iniciativa de fazer aquele modesto programinha, que não durou mais de duas horas, mas que me soube muitíssimo bem e será uma ocasião a recordar.

02/09/07

Letargia


É fácil deixar-me ficar em casa. O calor em excesso não me convida a praias nem a passeios: prefiro evitar queimaduras, filas de trânsito, lutas desesperadas por um lugar de estacionamento, canseiras a carregar tarecos para fora e para dentro do carro, a omnipresença dos outros.

A recuperação do parto continua a ser uma boa desculpa para me mexer pouco (ou apenas quando me apetece!), o bebé uma excelente razão para ficar aqui, na penumbra dos estores protectores e na frescura pacífica deste nosso mundinho seguro. E a minha barriga vai-se mantendo em forma (isto é, proeminente), na letargia dos dias passados assim.

(29.08.07)

31/08/07

O poder de Deus

AVISO: ESTE POST FERIR ALGUMAS SUSCEPTIBILIDADES. PEÇO DESCULPA, SE OFENDO ALGUÉM COM AS MINHAS PALAVRAS. PRETENDO APENAS EXPRIMIR A MINHA HUMILDE OPINIÃO.



Afinal, Deus é assim tão importante?

Porque é que quem acredita tem de o defender “até aos confins do mundo” (a expressão é de uma “apaixonada” que comentou o meu texto anterior), em vez de simplesmente se comprazer nessa satisfação espiritual que alcançou?

Se é verdade que a Igreja tentou converter muita gente à força em nome de interesses que nada tinham que ver com a religião, não se pode negar que haja ainda hoje muitos milhares de pessoas que abnegadamente se dedicam a espalhar a “palavra de Deus” (na verdade, palavras de outras pessoas sobre ele), apenas para partilhar com os outros a bênção que crêem ter recebido.

E para quê? Para que nos sintamos todos muito bem, na certeza de que resolvemos o mistério do Universo? Para que nos amemos todos e sejamos felizes, sem guerras, sem doenças e sem fome? Para que nos regozijemos na antevisão da vida para além da morte?

Parece-me uma grande ingenuidade. Para dar importância a sentimentos positivos como o amor, o respeito pelo próximo, a solidariedade, a justiça, para viver segundo princípios que nos dignifiquem, de acordo com uma moral que é filosófica e cultural, além de poder ser religiosa, não é preciso ter-se descoberto esse Amor de Deus que os crentes insistem em pregar.
Todos sabemos que, muitas vezes, é em nome de Deus que se cometem as maiores atrocidades. Eu diria mesmo que, à escala mundial, e considerando todas as religiões, os crentes prejudicam mais os outros seres humanos do que os ajudam. Porque cada “facção” acha que é a única que está na posse da verdade sobre Deus! E, mesmo quando conseguem conquistar novas “almas”, não é por isso que a violência, as doenças, os crimes, a fome, a injustiça deixam de existir e de fazer as suas inúmeras vítimas diárias. Então para quê dar tanta importância a essa entidade que NÃO RESOLVE NADA?

Desculpem, mas o pai de um amigo meu acaba de morrer com cancro. Era um homem bom, justo, solidário, sensível. Há seis meses ninguém suspeitava que viria a sofrer o que sofreu nestes últimos tempos, que viria a sucumbir de forma tão dolorosa e horrível, minado por um inimigo misterioso. Seria Deus?

Não sei. Mas também não me interessa. Porque, tanto quanto podemos saber com toda a certeza, SÓ TEMOS ESTA VIDA, SÓ NOS TEMOS UNS AOS OUTROS. O resto continua a ser uma incógnita.

24/08/07

A mãe do Pedro



A mãe do Pedro não fazia parte dos anónimos “outros”. Era uma senhora muito amável, daquelas pessoas que se adivinham intrinsecamente boas – assim como o marido, de resto. Eram um casal simpático e conversador, pais de um amigo meu dos tempos da adolescência, que moravam no prédio em frente. Não a conhecia bem e nunca fui lá a casa, porque a amizade que existia entre mim, o filho dela e os restantes membros do grupo era essencialmente “de rua”, como era hábito naqueles tempos sãos, em que nunca se ouvia falar de raptos nem de assaltos por aquelas bandas. Mas, ainda assim, gostava dela.

A mãe do Pedro era bonita. Uma senhora que não dava nas vistas, por ser baixa e algo redondinha, mas que uns olhos claros e límpidos, um sorriso franco, bem aberto, que lhos fechava com doçura, e uma pele muito branca, salpicada de sardas discretas, tornavam de facto bela. Lembro-me que tinha o cabelo sempre bem penteado e uma voz serena, cujo timbre ainda consigo ouvir cá dentro, no recanto das minhas memórias.

À mãe do Pedro não podia ter acontecido uma tragédia tão grande, dessas que só acontecem aos “outros”: estar na praia a molhar os pés e ser engolida por uma onda que a arrastou impiedosamente, sob o olhar aflito do marido, para a devolver muito mais tarde à superfície, a quatro quilómetros de distância.

Ao Pedro e à família não deveria ter acontecido essa atrocidade: perderem assim a mãe, de uma forma tão injusta, tão bruta, tão malvada.

Não me venham dizer que Deus lá tem as suas razões, que os homens não conseguem compreender.

20/08/07

Os filhos



Os filhos são tudo para nós. Mas também nos consomem.

Viver em função deles é inevitável. E no entanto, muito poucos são os que mais tarde reconhecem e apreciam o que os pais fizeram por eles.

Enquanto crianças, são demasiado novos para fazer mais do que amar-nos – e nada mais lhes pedimos, naturalmente.

Na adolescência, porém, quando começam a pôr-nos em causa, a querer seguir por caminhos que nunca ousámos pisar, a desafiar-nos a autoridade, a paciência e a boa vontade, também é inevitável cobrar-lhes o tempo que lhes dedicámos, exigindo o respeito e a obediência que julgamos merecer, apenas porque escolhemos tê-los e os educámos da melhor forma que sabíamos. Então, eles respondem, desarmando-nos: “não pedi para nascer!”